Coisas de outros tempos
segunda-feira, julho 14, 2008
Construções deArmar
Há quem ligue a invenção do papel à da arte de criar modelos neste material. No entanto, não existem exemplos nem documentação que prove esta teoria.
Calcula-se que o papel terá sido inventado na China por volta do ano 100 da nossa era, estando ligado ao nome de um funcionário chamado Ts'ai Lun, provavelmente fabricado a partir de tecido, muito embora rapidamente o fabrico passasse a utilizar matéria vegetal. Durante cerca de 500 anos, o segredo manteve-se naquele país, tendo sido levado para o Japão por volta do século VII por monges budistas. Em 751 d.C., os árabes que ocupavam Samarcanda foram atacados pelos chineses e fizeram prisioneiros, de entre os quais alguns conheciam o segredo do fabrico do papel, que depressa circulou em direcção ao ocidente através das caravanas comerciais, tendo chegado ao Egipto por volta do século X, à península ibérica no século XII, e à Sicília, por via da ocupação árabe, alargando-se posteriormenta à península itálica; em 1276 havia já fábricas de papel em Fabriano, e em 1348 em França, na cidade de Troyes, e no século XIV o papel já era conhecido e utilizado em grande parte da Europa, sobretudo para a manufactura de documentos e livros. Nas ilhas britânicas apenas no século XV foi criada a primeira fábrica, em Hertford, e nos Estados Unidos isso só aconteceu em 1690, no estado da Pensilvânia.
O desenvolvimento do processo de fabrico do papel e o seu subsequente embaratecimento tornaram este material bastante popular para as mais diversas aplicações, sobretudo a partir da Revolução Industrial, quando a técnica de impressão evoluiu o suficiente para criar produtos de qualidade. E os brinquedos não foram excepção. Popularizaram-se os modelos de papel, com roupas que podiam ser recortadas e colocadas por cima das figuras, os teatros de papel e, claro, as construções de armar. Mas muitas delas acabaram por perder-se, já que este material é frágil e destrói-se facilmente. Só no século XIX é que na verdade se desenvolveu a comercialização deste tipo de brinquedos, que acabavam por envolver toda a família no recorte, colagem e montagem dos modelos.
Mas foi no século XX que, após a I Guerra Mundial, o interesse se alargou a temas militares: modelos de barcos, aviões e outro tipo de armamento. Durante o conflito mundial seguinte, e devido à escassez de matéria-prima para o fabrico de brinquedos, numa altura em que o esforço de guerra e a crise mundial obrigavam ao racionamento de metais, o papel adquiriu enorme relevância no fabrico de brinquedos, muito embora fosse igualmente objecto de restrições no seu uso, e a sua qualidade tivesse descido consideravelmente. Muitos modelos eram publicados em páginas de jornais, sobretudo nos suplementos dominicais de Comics, ou até em caixas de cereais.
Em Portugal, a partir de 1930 algumas revistas destinadas a crianças e jovens passaram a publicar folhas com construções de armar, como foi o caso do Pim-Pam-Pum, um suplemento infantil do jornal O Século, das revistas de quadradinhos O Senhor Doutor, O Mosquito e mais tarde Cavaleiro Andante, em muitos casos vendidas em folhas à parte ou integrando as publicações como suplementos. Eram frequentemente impressas em papel de má qualidade e com uma deficiente aplicação da cor, mas fizeram as maravilhas de muitos dos seus leitores, que viam aqui a possibilidade de construirem automóveis, aviões e barcos, cenários mais sofisticados, como parques de diversão, presépios, monumentos e casas populares, já que o material utilizado, o papel, não requeria instrumentos mais sofisticados do que uma tesoura e cola, para além de alguns cuidados na sua manipulação e algum jeito. Mas muitas dessas construções foram concebidas por grandes desenhadores portugueses, sobretudo ligados às chamadas histórias aos quadradinhos.
Se hoje em dia há criações muito sofisticadas, miniaturas realizadas com grande pormenor, exposições e museus de construções de armar, tudo isso se deverá a esta invenção com quase dois mil anos.
As construções aqui divulgadas foram publicadas com a revista O Mosquito.
Fazem parte de uma série intitulada Uma Aldeia Alentejana e constituem as partes 1 a 4: A Igreja, A Casa do Povo, A Casa dum Aldeão, A Casa do Lavrador. Foram publicadas em papel de má qualidade, o mesmo em que era impressa a revista, sendo difícil a sua montagem nestas condições, a não ser que se colasse este papel noutro mais grosso ou em cartolina, já que as construções neste último material só começaram a surgir mais tarde, segundo creio, pelos anos 60.
Obs.: Este post foi publicado em simultâneo no blogue Mania dos Quadradinhos.
Resolução: 300 dpi.

A Igreja


A Casa do Povo

A Casa dum Aldeão

A Casa do Lavrador


Etiquetas: Brinquedos, Construções de armar, Papel
quarta-feira, setembro 13, 2006
Soldadinhos de chumbo
Os soldadinhos de chumbo, tal como geralmente os conhecemos hoje em dia, não passam de uma memória para muitos adultos, e são geralmente peças de colecção, tendo desaparecido do mundo infantil dos brinquedos, sendo ainda possível encontrá-los, no entanto, embora em número mais reduzido do que noutros tempos, fabricados em plástico ou qualquer outro material sintético.
Encontra-se documentada a existência de pequenas figuras que se destinavam a entreter as crianças, nomeadamente desde o Antigo Egipto, fabricadas em argila, madeira ou metal, mas só no século XVIII é que popularizou a produção dessas pequenas miniaturas de soldados, inicialmente através de uma fábrica parisiense, Mignot, com preços pouco acessíveis à maioria das bolsas.
Só no século XX é que teve início a produção em massa de soldadinhos de chumbo na Europa, com cerca de 5 a 6 cm de altura (normalmente andam pelos 54 mm), que representavam os exércitos de diversas potências europeias ou dos Estados Unidos, tendo-se mais tarde alargado a produção a figuras da Antiguidade, nomeadamente Roma, Grécia, países do norte da Europa ou do Norte de África ou Oriente. Isto veio disseminar o coleccionismo destas figuras, tornando-as num passatempo para adultos, de entre os quais merece destaque Winston Churchill.
Após a II Guerra Mundial, começou então o fabrico de soldadinhos em plástico, mais baratos e por isso mais populares, pintados ou em bruto, destinados a serem pintados à mão por quem os adquirisse, o que também veio a acontecer com as pequenas figuras em chumbo. Alargou-se então o leque da oferta, passando a incluir cenas históricas ou retiradas de filmes, para além de surgir paralelamente uma enorme quantidade de acessórios.
Nos dias de hoje voltaram a surgir de forma massificada em edições em fascículos, sendo as pequenas figuras geralmente produzidas na China, havendo no mercado diversas séries dedicadas a figuras militares de Antiguidade, das guerras napoleónicas, da II Guerra Mundial, ou mais especializadas, como as que representam a artilharia através dos tempos. Existem ainda antigas fábricas que produzem miniaturas em chumbo de forma mais artesanal, sendo por isso mais caras, para além de sites dedicados a este tipo de coleccionismo ou com informação relativa ao fabrico de miniaturas em chumbo.




Etiquetas: Brinquedos, Soldadinhos de chumbo
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Bonecas de papel
É do conhecimento geral que o papel foi inventado na China, por volta do ano 105, por Ts'ai Lun, muito embora a palavra derive do termo papiro, se bem que este papel nada tinha em comum com o fabrico do papiro, e não é de estranhar, portanto, que as primeiras figuras de papel tenham origem nesse país do Oriente, sendo utilizadas numa cerimónia de purificação através da sua colocação num pequeno barco, envolvidas numa espécie de quimono, e também não será desconhecida a utilização de figuras recortadas em papel em teatros de sombras.
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Mas as bonecas só surgiram por volta do século XVII, na Alemanha, sendo manufacturadas em madeira, e os artesãos que as fabricavam eram requisitados em toda a Europa. Daí até ao aparecimento das bonecas de papel foi um pequeno passo. As primeiras terão surgido em Paris, no século XVIII, durante o reinado de Luís XV, e eram sobretudo utilizadas pelos fabricantes de roupas para publicitar os seus produtos junto dos seus clientes, já que cada uma destas bonecas, em cartão, vinha com diversos modelos de roupa e de penteados à parte.
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Foi em 1810 que a empresa inglesa S. & J. Fuller & Company mandou imprimir a primeira boneca de papel com intuitos comerciais. Chamava-se Little Fanny, e surgia num livro de 15 páginas que incluía sete figuras e cinco chapéus. A sua cabeça e pescoço eram separados, de maneira a poderem ser utilizados em diversos figurinos, que contavam uma pequena história. Cada um destes livros custava entre 5 a 8 xelins, um valor apenas ao alcance das famílias mais abastadas.
O seu sucesso levou ao aparecimento da versão norte-americana, fabricada por J. Belcher e dentro de uma dezena de anos tinham-se já popularizado os brinquedos constituídos por caixas de bonecas de papel contendo diversos figurinos. As figuras eram normalmente litografadas ou pintadas à mão, muito embora surgisssem também a preto e branco, para serem coloridas pelas crianças. Por volta de 1830 começaram a aparecer composições mais elaboradas, sobretudo baseadas em celebridades, como circos ou reproduções da família real de Inglaterra e em 1838 Charles Fenerty passou a fabricá-las a partir de pasta de papel, o que fez diminuir muito o seu preço, tornando-se assim ainda mais populares e ao alcance das bolsas de famílias da classe média. Por volta de finais do século XIX, alguns jornais começaram também a imprimir bonecas de papel, que conheceram uma grande popularidade por altura da depressão dos anos 20, já que eram frequentemente distribuídas conjuntamente com os suplementos de quadradinhos, apresentando algumas das suas mais populares personagens.
A sua utilização enquanto brinquedo teve ainda forte expressão durante todo o século XX, principalmente até aos anos 60 e 70 ( as décadas mais significativas foram as de 30, 40 e 50), decaindo posteriormente a sua popularidade face à massificação de bonecas com roupas já em tecido, e hoje em dia, muito embora ainda se fabriquem, são sobretudo destinadas a coleccionadores.
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Etiquetas: Bonecas de papel, Brinquedos, Papel
sexta-feira, abril 15, 2005
View-Master
Aqui há uns anos atrás, quando a televisão dava os seus primeiros passos em Portugal ou ia nos primórdios das emissões ainda a preto e branco, ainda nos tempos do cinema caseiro em Super 8, estava em voga um aparelho para visionar uns discos com imagens em positivo que se chamava Viewmaster e que era muitas e muitas vezes um dos tipos de recordações que se trazia das viagens ou que servia para entreter as crianças.
Tendo começado a ser comercializado em 1939, apenas destinado a um público adulto, depressa se percebeu o potencial que tinha para agradar igualmente a um público infantil e juvenil, e rapidamente começaram a surgir os pequenos discos com personagens de desenhos animados ou com uma intenção cultural. Tendo surgido na tradição da fotografia estéreo que vinha já do século XIX, o Viewmaster foi inventado por William Gruber e comercializado por Harold Graves através da Sawyer, que nos anos 50 passou dos cartões individualizados para as séries temáticas e conseguiu os direitos para fabricar discos sobre personagens de Walt Disney, sobre a Disneilândia e programas televisivos de sucesso.
Embora ainda hoje se fabrique e tenha bastantes fãs, o Viewmaster perdeu terreno face às novas tecnologias e à popularização dos vídeos e DVD, bem como em relação à fotografia digital, tornando-se no entanto um objecto de colecção, havendo séries e aparelhos bastante raros e disputados entre coleccionadores, se bem que ainda hoje existem diversos estudos sobre a fotografia estéreo e a sua adaptação a cinema e à fotografia digital.
Etiquetas: Brinquedos, Fotografia, Imagem, View-Master
segunda-feira, março 21, 2005
Histórias infantis
Os brinquedos desde sempre fizeram parte do imaginário infantil, e muito embora hoje em dia esteja mais em voga a noção do brinquedo enquanto instrumento pedagógico-didáctico, os brinquedos de antigamente continuam a ter um lugar especial no coração dos mais velhos, ou porque com eles se identificam ou porque neles encontram momentos de magia em tudo idênticos aos que uma vez viveram, ou ainda por mera curiosidade ou espírito de coleccionista.
Se os brinquedos da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX eram em grande parte produzidos em folheta, muitos dos quais constituindo uma parte importante de colecções de museus, havendo até na região de Lisboa um museu inteiramente dedicado ao tema, actualmente existem regras bastante mais rígidas para os materiais em que são produzidos, evitando muitos dos acidentes que ocorriam em tempos mais recuados, mas por outro lado verificando-se também uma grande quantidade de brinquedos tecnologicamente muito avançados, ou mesmo ligados ao universo das novas tecnologias da informação, relegando muitas vezes os livros para um lugar secundário.
Mas há coisas que não desaparecem com o tempo, e as histórias infantis são uma delas. Editadas em Portugal principalmente pela Majora, uma editora de livros para crianças e fábrica de brinquedos que era capaz de competir com outras empresas internacionais, publicavam-se livros em papel ou mesmo em pano de diversos formatos com histórias que provinham das Mil e uma Noites, do imaginário de Charles Perrault, dos irmãos Grimm ou de outros autores, livrinhos que ensinavam a primeiras letras e que incentivavam à leitura e permitiam um vislumbre do mundo mágico dos contos, muito embora pudéssemos neles encontrar frequentemente a indicação de que a publicação tinha sido autorizada pela Comissão de Literatura e Espectáculos para Menores.
Exemplo destes livrinhos encontramos aqui nestas reproduções, desde a História da Bela Adormecida, de C. Perrault, editado pela Livrolândia, Lda., e integrada numa série de Histórias Tradicionais, até às Viagens do B-A-BÁ no País da Sabedoria, escrito e desenhado por Gabriel Ferrão, da Majora, e que misturava sabiamente a aperndizagem das letras com o mundo fantástico das histórias infantis, passando por A Bengala do Papo-Seco, também da Majora, que era uma adaptação da história tradicional, realizada por Dora Santiago, com desenhos de Gabriel Ferrão.
Mas havia livros que constituíram, muito particularmente pelo seu formato, um mundo à parte nesta literatura infantil: era os livros de pequenas dimensões, como O Moço sem Pinta de Sangue, uma adaptação de Costa Barreto, com desenhos de César Abbott, integrado na colecção «Contos das Mil e Uma Noites», e editado pela Majora, e muito especialmente os livros da «Colecção Periquito», como Os Três Felizardos, da Majora, um livrinho de 16 páginas, com cerca de 12 x 9 cm, e ainda os da «Colecção Formiguinha», igualmente da Majora, como este O Sapateiro e o Brilhante, também com 16 páginas, mas com uma dimensão de 9,8 x 7,2 cm, aproximadamente, e os da «Colecção Tonecas», como Gulliver no país dos anões, que em 16 páginas, incluindo as capas, nos relatava aventuras no tamanho mínimo de 7,2 x 5,5 centímetros por um preço de 40 centavos.
Etiquetas: Brinquedos, Histórias infantis, Literatura


























