Coisas de outros tempos

Depositório de imagens (e alguns textos) de coisas várias

sábado, Outubro 04, 2008

Os lápis Viarco

A marca Viarco existe desde 1936, muito embora a fábrica que esteve na sua origem remonte a 1907, originária de Vila do Conde e ligada ao grupo Vieira Araújo. Especializou-se no fabrico de lápis, que é basicamente um bastão fino de grafite inserido num cilindro de madeira.

Na origem do lápis terá estado o stylus, muito utilizado pelos romanos, embora a sua origem remonte à Mesopotâmia e ao Egipto, e que era um pedaço de metal fino utilizado para escrever em pequenas tábuas com uma fina camada de cera, que serviam para registar as mensagens e que eram posteriormente transcritas para rolos de papiro.

No século XVI, em Inglaterra, foi descoberto um grande depósito de grafite, tendo os habitantes dessa zona concluído que este material era útil para marcar ovelhas. Dada a dureza e pureza do material, observou-se que era fácil cozê-lo a uma colher de pau, nascendo assim os primeiros lápis, de que este país teve o monopólio durante anos. Eventualmente foram descobertos outros depósitos de grafite, muito embora se chegasse à conclusão de que era necessário desfazer o material em pó e, numa fase posterior, comprimi-lo, de forma a obter um produto com alguma dureza, que pudesse ser convertido em pequenos bastões e colado em meios cilindros de madeira, que depois eram unidos. Esse é, ainda hoje, o processo de fabrico deste utensílio, com maior mecanização e utilizando processos mais sofisticados para se obter, por exemplo, os lápis de cor.

Os lápis Viarco ainda hoje são fabricados e constituíram, durante muitos anos, o material de escrita mais utilizado, tanto nas escolas como em ofícios, nomeadamente na carpintaria.

A fábrica produzia lápis que eram vendidos individualmente, com diversos graus de dureza, desde os mais macios até aos mais duros, lápis de cor, em caixas de seis ou doze unidades, sendo os lápis de marcas estrangeiras muito mais caros, como era o caso dos Caran d'Ache.

O processo de fabrico do lápis pode ser observado num vídeo apresentado nesta página da National Geographic.

Os lápis Viarco ainda hoje se vendem em Portugal. Existe uma loja na baixa de Lisboa que tem à venda estes e outros objectos e materiais de tempos mais recuados. Intitulada A Vida Portuguesa Desde Sempre, situa-se na Rua da Anchieta, nº 11, 1200-023 Lisboa.







    


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segunda-feira, Julho 14, 2008

Construções deArmar

Há quem ligue a invenção do papel à da arte de criar modelos neste material. No entanto, não existem exemplos nem documentação que prove esta teoria.

Calcula-se que o papel terá sido inventado na China por volta do ano 100 da nossa era, estando ligado ao nome de um funcionário chamado Ts'ai Lun, provavelmente fabricado a partir de tecido, muito embora rapidamente o fabrico passasse a utilizar matéria vegetal. Durante cerca de 500 anos, o segredo manteve-se naquele país, tendo sido levado para o Japão por volta do século VII por monges budistas. Em 751 d.C., os árabes que ocupavam Samarcanda foram atacados pelos chineses e fizeram prisioneiros, de entre os quais alguns conheciam o segredo do fabrico do papel, que depressa circulou em direcção ao ocidente através das caravanas comerciais, tendo chegado ao Egipto por volta do século X, à península ibérica no século XII, e à Sicília, por via da ocupação árabe, alargando-se posteriormenta à península itálica; em 1276 havia já fábricas de papel em Fabriano, e em 1348 em França, na cidade de Troyes, e no século XIV o papel já era conhecido e utilizado em grande parte da Europa, sobretudo para a manufactura de documentos e livros. Nas ilhas britânicas apenas no século XV foi criada a primeira fábrica, em Hertford, e nos Estados Unidos isso só aconteceu em 1690, no estado da Pensilvânia.

O desenvolvimento do processo de fabrico do papel e o seu subsequente embaratecimento tornaram este material bastante popular para as mais diversas aplicações, sobretudo a partir da Revolução Industrial, quando a técnica de impressão evoluiu o suficiente para criar produtos de qualidade. E os brinquedos não foram excepção. Popularizaram-se os modelos de papel, com roupas que podiam ser recortadas e colocadas por cima das figuras, os teatros de papel e, claro, as construções de armar. Mas muitas delas acabaram por perder-se, já que este material é frágil e destrói-se facilmente. Só no século XIX é que na verdade se desenvolveu a comercialização deste tipo de brinquedos, que acabavam por envolver toda a família no recorte, colagem e montagem dos modelos.

Mas foi no século XX que, após a I Guerra Mundial, o interesse se alargou a temas militares: modelos de barcos, aviões e outro tipo de armamento. Durante o conflito mundial seguinte, e devido à escassez de matéria-prima para o fabrico de brinquedos, numa altura em que o esforço de guerra e a crise mundial obrigavam ao racionamento de metais, o papel adquiriu enorme relevância no fabrico de brinquedos, muito embora fosse igualmente objecto de restrições no seu uso, e a sua qualidade tivesse descido consideravelmente. Muitos modelos eram publicados em páginas de jornais, sobretudo nos suplementos dominicais de Comics, ou até em caixas de cereais.

Em Portugal, a partir de 1930 algumas revistas destinadas a crianças e jovens passaram a publicar folhas com construções de armar, como foi o caso do Pim-Pam-Pum, um suplemento infantil do jornal O Século, das revistas de quadradinhos O Senhor Doutor, O Mosquito e mais tarde Cavaleiro Andante, em muitos casos vendidas em folhas à parte ou integrando as publicações como suplementos. Eram frequentemente impressas em papel de má qualidade e com uma deficiente aplicação da cor, mas fizeram as maravilhas de muitos dos seus leitores, que viam aqui a possibilidade de construirem automóveis, aviões e barcos, cenários mais sofisticados, como parques de diversão, presépios, monumentos e casas populares, já que o material utilizado, o papel, não requeria instrumentos mais sofisticados do que uma tesoura e cola, para além de alguns cuidados na sua manipulação e algum jeito. Mas muitas dessas construções foram concebidas por grandes desenhadores portugueses, sobretudo ligados às chamadas histórias aos quadradinhos.

Se hoje em dia há criações muito sofisticadas, miniaturas realizadas com grande pormenor, exposições e museus de construções de armar, tudo isso se deverá a esta invenção com quase dois mil anos.

As construções aqui divulgadas foram publicadas com a revista O Mosquito.

Fazem parte de uma série intitulada Uma Aldeia Alentejana e constituem as partes 1 a 4: A Igreja, A Casa do Povo, A Casa dum Aldeão, A Casa do Lavrador. Foram publicadas em papel de má qualidade, o mesmo em que era impressa a revista, sendo difícil a sua montagem nestas condições, a não ser que se colasse este papel noutro mais grosso ou em cartolina, já que as construções neste último material só começaram a surgir mais tarde, segundo creio, pelos anos 60.


Obs.: Este post foi publicado em simultâneo no blogue Mania dos Quadradinhos.

Resolução: 300 dpi.





A Igreja




A Casa do Povo



A Casa dum Aldeão



A Casa do Lavrador





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quarta-feira, Setembro 13, 2006

Soldadinhos de chumbo

Os soldadinhos de chumbo, tal como geralmente os conhecemos hoje em dia, não passam de uma memória para muitos adultos, e são geralmente peças de colecção, tendo desaparecido do mundo infantil dos brinquedos, sendo ainda possível encontrá-los, no entanto, embora em número mais reduzido do que noutros tempos, fabricados em plástico ou qualquer outro material sintético.

Encontra-se documentada a existência de pequenas figuras que se destinavam a entreter as crianças, nomeadamente desde o Antigo Egipto, fabricadas em argila, madeira ou metal, mas só no século XVIII é que popularizou a produção dessas pequenas miniaturas de soldados, inicialmente através de uma fábrica parisiense, Mignot, com preços pouco acessíveis à maioria das bolsas.

Só no século XX é que teve início a produção em massa de soldadinhos de chumbo na Europa, com cerca de 5 a 6 cm de altura (normalmente andam pelos 54 mm), que representavam os exércitos de diversas potências europeias ou dos Estados Unidos, tendo-se mais tarde alargado a produção a figuras da Antiguidade, nomeadamente Roma, Grécia, países do norte da Europa ou do Norte de África ou Oriente. Isto veio disseminar o coleccionismo destas figuras, tornando-as num passatempo para adultos, de entre os quais merece destaque Winston Churchill.

Após a II Guerra Mundial, começou então o fabrico de soldadinhos em plástico, mais baratos e por isso mais populares, pintados ou em bruto, destinados a serem pintados à mão por quem os adquirisse, o que também veio a acontecer com as pequenas figuras em chumbo. Alargou-se então o leque da oferta, passando a incluir cenas históricas ou retiradas de filmes, para além de surgir paralelamente uma enorme quantidade de acessórios.

Nos dias de hoje voltaram a surgir de forma massificada em edições em fascículos, sendo as pequenas figuras geralmente produzidas na China, havendo no mercado diversas séries dedicadas a figuras militares de Antiguidade, das guerras napoleónicas, da II Guerra Mundial, ou mais especializadas, como as que representam a artilharia através dos tempos. Existem ainda antigas fábricas que produzem miniaturas em chumbo de forma mais artesanal, sendo por isso mais caras, para além de sites dedicados a este tipo de coleccionismo ou com informação relativa ao fabrico de miniaturas em chumbo.





  

    

    


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quarta-feira, Junho 14, 2006

A Colecção Educativa

A Colecção Educativa publicou-se em Portugal a partir da década de 50, integrada no Plano de Educação Popular, destinada por um lado aos alunos da escola primária, o nível de ensino mais básico e fundamental preocupação do regime salazarista no que dizia respeito à educação e o nível considerado obrigatório de escolaridade; por outro lado, pretendia ir ao encontro dos cursos de educação de adultos, tendo como alvo antigos alunos do ensino primário. Para além disso, era uma forma de divulgar o que se entendia como valores nacionais, os hábitos morais e a educação religiosa católica e tradicionalista.

Esta colecção chegou a publicar 115 títulos, que se encontravam divididos por séries: uma primeira, A, de doutrina, a segunda, B, de informação e propaganda, a série C mais orientada para aspectos técnicos e científicos, a D para a História de Portugal, a E para regiões de Portugal Continental ou territórios ultramarinos, a F para a arte e a literatura tradicionais, a G sobre outros aspectos da cultura portuguesa, desde a literatura à arte e à história, a H focando aspectos diversos da civilização portuguesa sob um ponto de vista doutrinal afecto ao regime, a I vocacionada para as tradições familiares mas em que cabiam, por exemplo, os primeiros socorros, a J para o desporto e os jogos, a L sobre técnicas e tecnologias, a M relacionada com aspectos laborais, a N tratando assuntos ligados à agricultura, pecuária ou artesanato e a série O cobrindo uma temática ligada ao teatro e aos contos populares.

Estes livros, em forma de livro de bolso, destinavam-se por isso à generalidade da população já alfabetizada, mas cujo nível de ensino não ia além da escola primária, integrando uma ideia que remontava aos finais dos anos 40, que passava pela criação de bibliotecas básicas nas escolas portuguesas, uma intenção da Junta de Educação Nacional, no âmbito da qual havia sido criada a Direcção-Geral de Educação Permanente no Ministério da Educação Nacional, se bem que uma parte da edição dos livros coubesse à Direcção-Geral do Ensino Primário.

Todas as obras tinham no entanto uma particularidade: a de apresentarem uma citação de Salazar na página a seguir à folha de rosto.



Uma das citações de Salazar publicada num dos volumes da colecção



O cariz das obras, os seus autores, muitos deles afectos ao regime, e a citação fizeram com que, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, tivesse sido ordenada a sua destruição generalizada em fogueiras que lembravam autos-de-fé, como se relata num artigo publicado em Julho de 2005 pelo jornal Público. Ao que se sabe, já que grande parte dos intervenientes políticos da altura parece não se recordar do facto, tudo partiu de um despacho de Rui Grácio, datado de 17 de Outubro de 1974, onde se lia:

«Tendo sido informado de que nas Bibliotecas dos estabelecimentos de ensino existe quantidade apreciável de livros e revistas de índole fascista, determino que seja elaborada uma circular ordenando a destruição das publicações com esse carácter, depois de arquivados um exemplar, pelo menos, de cada revista e alguns livros a seleccionar, que fiquem como documento ou testemunho de um regime.»


Foram assim queimadas cerca de 51 obras e arrancadas folhas de quase outras tantas. Ainda por essa altura, teve lugar o saneamento das obras desta colecção, sendo «aprovadas» 65 obras e «reprovadas» 47.

Sobre este assunto, recomenda-se a leitura da obra de Daniel Melo, A Leitura Pública no Portugal Contemporâneo (1926-1987).



Edição de 1972

Página de rosto do volume intitulado E Fez-se Portugal.

Contra-capa da edição dedicada a Gil Vicente.

Edição de 1973

Edição de 1974

2ª edição, de 1970

2ª edição, de 1969

Edição de 1971

Lista das obras da colecção








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sexta-feira, Maio 12, 2006

A revista Plateia

A revista Plateia surgiu em 1951, sob a direcção de Luís Miranda (mais tarde, Baptista Rosa foi um dos directores), com título de propriedade de António Joaquim Dias, que esteve na origem da empresa Aguiar e Dias.

Terá publicado 1031 números até ao ano de 1986, quando foi extinta.

Sendo caracterizada como uma revista de espectáculos, sobretudo de cinema e teatro, também abordou o mundo da música comercial, através de diversos artigos e reportagens, sendo publicados alguns números especiais dedicados a cantores ou grupos, de que foram exemplo os Beatles.

O título não era inédito no panorama das publicações de espectáculos, tendo havido anteriormente uma folha quinzenal intitulada A platea, publicada em Lisboa entre 1875 e 1876, e uma outra com o título A platéa, em 1900 e 1901, apresentando-se como publicação theatral e litteraria. Em 1913, no Porto, publicou-se também A plateia, um jornal de teatros, sob a direcção de Alfredo Saldanha, e em 1922, novamente em Lisboa, surgiu A plateia: publicação teatral, dirigida por Otávio da Piedade, que terá durado oito números. As dimensões destas publicações, como era aliás habitual em finais do século XIX e princípios do século XX, era bem maiores do que a revista a que nos referimos: enquanto as mais antigas oscilavam entre os 32, 33 ou 39 centímetros de altura, a Plateia de 1951 media cerca de 28 cm, tendo chegado a apresentar uma dimensão bastante mais curta por volta dos anos 60.

Nas suas páginas, profusamente ilustradas com fotografias, praticamente na totalidade a preto e branco, surgiram grandes nomes do teatro em Portugal, em particular do teatro de revista, alternando com artigos com maior incidência no voyeurismo do dia a dia dos e das artistas, procurando abranger um público diversificado, que procurava satisfazer a sua curiosidade sobre a vida dos famosos. O aparecimento da televisão tele uma grande influência da concepção da revista, que passou a dar maior realce às figuras que iam aparecendo no pequeno ecrã, e nas suas páginas podemos observar como era o panorama do mundo do teatro e da música mais comercial que se ouvia em Portugal, já que só nos anos 70 vieram a surgir publicações totalmente dedicadas ao panorama musical.



Capa da Plateia nº 830, datada de Junho de 1978.

Capa da Plateia nº 833, de Julho de 1978.

Capa do número especial da Plateia dedicado à telenovela Escrava Isaura, sem data.

Capa da Plateia Especial nº 934, de Janeiro de 1982.


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sábado, Abril 22, 2006

Revistas de música 2: Música & Som

Com o primeiro número editado a 11 de Fevereiro de 1977, tendo uma periodicidade quinzenal (era publicada às quintas-feiras), e passando mais tarde a mensal, a revista Música & Som tinha redacção sediada em Lisboa, sendo seu director António Luís de Mendonça, e um corpo redactorial onde se incluíam nomes como A. Amaral Pais, A. Duarte Ramos, que foi posteriormente director e que hoje possui um site com o mesmo nome da revista, João David Nunes, Jaime Fernandes, José Niza, entre outros, sendo muitos destes nomes personalidades conhecidas no panorama musical português, com ligações à rádio, o que augurava à publicação alguma qualidade nos textos e na cobertura das reduzidas iniciativas que iam tendo lugar no país, colmatando uma lacuna na temática a que se dedicava, já que pouco mais havia que se dedicasse exclusivamente à música, à excepção do Mundo da Canção, que saía para as bancas com uma periodicidade irregular.

Para além dos artigos dedicados a músicos, álbuns ou programas musicais na televisão, crítica de discos, possuía rubricas de cariz mais técnico, apresentava ainda algumas letras de músicas e um poster nas páginas centrais (que no verso chegou a apresentar um top de discos, a cores, com reproduções das respectivas capas).

A propriedade de Música & Som estava registada em nome de Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Ldª, e durou dez anos, extinguindo-se em 1987. Chegou a ter uma publicação complementar, intitulada Top Música & Som, entre 1978 e 1979. A partir do número 113, alterou o título para Video música e som.

Nesse primeiro número, a sua tiragem era de 30 mil exemplares, descendo para os 25 mil no quarto número.



Reprodução da capa do número 1 de Música & Som, datado de 11 de Fevereiro de 1977

Reprodução da página 3 do número 1 de Música & Som

Reprodução do verso do poster incluído com o número 1. CLIQUE PARA AUMENTAR.>

Reprodução da capa do número 2 de Música & Som, datado de 24 de Fevereiro de 1977.

Reprodução da capa do número 3 de Música & Som, datado de 10 de Março de 1977.

Reprodução da capa do número 4 de Música & Som, datado de 24 de Março de 1977.


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